terça-feira, janeiro 09, 2007

A Morte Desceu à Rua...

Antes do ano terminar, desapareceu de cena, mais um ditador, um entre muitos… Saddam Hussein Abd al-Majid al-Tikriti, em árabe صدام حسين (Tikrit, 1937 - Bagdade, 2006).

De fiel amigo do ocidente, passou a pária indesejado…

Em 16 de Julho de 1979, o presidente Al-Bakr renunciou por motivos de saúde. Saddam assumiu então os títulos de chefe de Estado, presidente do Conselho do Comando Supremo da Revolução, primeiro-ministro, comandante das Forças Armadas e secretário-geral do partido Baath. Quinze dias depois, uma conspiração surgida entre os membros do partido do recém-nomeado líder máximo do Iraque terminou com a execução de 34 pessoas, entre elas membros do Exército e alguns dos mais íntimos colaboradores de Saddam Hussein.

Saddam cercou-se imediatamente de uma dezena de oficiais leais, os quais colocou em cargos de responsabilidade. É então, que o poder se torna verdadeiramente autocrático, com os primeiros anos de governo do auto-intitulado El-Raïs el-Monadel (o Presidente Combatente), a serem marcados pela execução de centenas de oposicionistas e a morte de 5.000 curdos em Halabja, em consequência da intoxicação provocada pelas bombas de gás Tabun lançadas pela aviação iraquiana.

Saddam Hussein auto-proclamou-se a reencarnação de Nabucodonosor II.

Conhecido por admirar, o ex-ditador soviético Josef Stalin, Saddam nunca foi um ideólogo, mas apelou muitas vezes ao nacionalismo árabe, ao Islão e ao patriotismo iraquiano para cimentar sua liderança.

Saddam acabou por desenvolver um culto à personalidade característico de países comunistas. Cartazes com retratos seus espalhados por ruas e avenidas de todo o Iraque, criação de uma imagem de islamita devoto e bom pai de família (embora fosse considerado um céptico do ponto de vista religioso e apreciasse bebidas alcoólicas proibidas pelo Islão), procedeu à eliminação violenta de toda a oposição política, censura a imprensa. Saddam acabou por parecer, aos olhos do iraquiano comum, como o retrato da autoridade infalível, ainda que tirânica.

Como todos os tiranos, Saddam Hussein temia que os seus inimigos políticos o derrubassem. Construiu 23 palácios para uso pessoal, todos permanentemente vigiados, jamais dormia duas noites seguidas no mesmo local…

Milhares de retratos, posses, fortografias, telas, cartazes, estátuas do ditador, no Iraque, de lés a lés…

Saddam de todas as maneiras e feitios.

O Iraque passou num espaço de 30 anos, na tabela de desenvolvimento humano, da 30ª posição, para o caos absoluto, onde reina a guerra, o desnorte absoluto, em que três etnias lutam pelo poder: curdos, sunitas e xiitas.

A ambição de Saddam era tornar-se o líder mais poderoso do Médio Oriente. Declarou guerra ao Irão do Aiatola Khomeini, tendo chegado a receber apoio norte-americano, uma vez, que os EUA temiam as consequências da ascensão da Revolução Islâmica, na região. Usando como pretexto a disputa por poços de petróleo, as relações entre Irão e Iraque deterioraram-se rapidamente.

Iraque e Irão iniciaram a guerra em 22 de Setembro de 1980. O pretexto para as hostilidades foi a disputa territorial. Saddam foi no entanto apoiado pelos Estados Unidos, pela União Soviética e por vários países árabes, todos eles desejosos de impedir a expansão de uma possível revolução moldada no Irão.

A guerra entre os dois países durou oito anos e nela morreram mais de um milhão de pessoas. Não houve vencedor declarado, e a guerra levou o país a sérias dificuldades económicas.

Em 2 de Agosto de 1990, apenas dois anos depois do fim da disputa, tropas iraquianas, seguindo ordens de Saddam Hussein, invadiram e anexaram ao território iraquiano, o vizinho emirado do Kuwait, país que mais ajudou financeiramente o Iraque durante a guerra contra o Irão.

No início de 1991, uma coligação internacional dirigida pelos Estados Unidos (então governado por George Bush) obrigou o Iraque a retirar-se do Kuwait. As tropas da coligação detiveram-se na fronteira entre o Kuwait e o Iraque.

Terminada a guerra, Saddam ainda teve que enfrentar as revoltas xiita e curda no Iraque, que não titubeou em reprimir duramente.

Em 2001, como uma resposta aos ataques terroristas do 11 de Setembro em Nova York e Washington, o presidente dos EUA, George W. Bush, incluiu o Iraque no chamado "eixo do mal”, o que abria caminho para a nova campanha militar norte-americana contra o país. Após a campanha afegã contra o regime talibã, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, iniciou a "segunda fase contra o terrorismo internacional".

Entretanto, o Iraque mergulhou numa espiral de violência, cidade a cidade, bairro a bairro, rua a rua, o sangue alastra e advinha-se a noite dos facas longas, em que os ajustes de contas desmembrarão a nação iraquiana.

Os atentados sucedem-se… Sem lei nem roque… O Iraque mergulhou na penumbra.

Um ano após a derrota, Saddam foi preso e formalmente acusado de genocídio cometido em 1982 (foi acusado de ter ordenado a execução de 148 iraquianos xiitas em Dujail, depois de ter sido alvo de um atentado fracassado). O julgamento foi uma farsa e esteve recheado de incidentes. Três dos seus advogados de defesa foram assassinados, o Juiz Presidente foi trocado. Organizações de defesa dos direitos humanos, como a Amnistia Internacional, condenaram o julgamento, afirmando que ele teve inúmeros erros.

Em 5 de Novembro de 2006, após um julgamento conturbado, o tribunal iraquiano condenou Saddam à pena de morte por enforcamento por crimes contra a humanidade.

O ex-ditador iraquiano Saddam Hussein, 69 anos, foi enforcado no dia 30 de Dezembro de 2006.

A sua morte foi-nos servida ao jantar, com requintes de sadismo, em todos os telejornais.

George W. Bush ao iniciar a segunda Guerra do Golfo, abriu a Caixa de Pandora, as consequências são imprevisíveis e o desabar das peças de dominó ameaçam alastrar a toda a região, incendiando o Médio Oriente e quem sabe, o Mundo...

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