sábado, abril 23, 2011

Paixão de Cristo entre Rio de Vide e Semide


Pelo vigésimo ano, mais de 20 jovens figurantes e actores recriaram o caminho de Cristo até à cruz, num percurso de quatro quilómetros que culminou no Senhor da Serra

Nem a chuva demoveu as dezenas de populares que, num percurso de quatro quilómetros, acompanharam a par e passo os últimos momentos de vida de Jesus Cristo, após ter sido condenado à morte por blasfémia, por se ter auto-proclamado rei dos judeus. Aconteceu ontem, em Rio de Vide e Semide, uma das encenações da “Paixão de Cristo” mais famosas da região e, quiçá, a mais antiga. Uma iniciativa que se repete há 20 anos, graças ao esforço conjunto das paróquias de Rio de Vide e Semide que, anualmente mobilizam os jovens para dar corpo e vida ao caminho da cruz.
Ontem, mais de 20 actores e figurantes do grupo de jovens das duas paróquias vestiram-se a rigor e recriaram as 14 estações da via-sacra, num percurso que culminaria no Santuário do Divino Senhor da Serra.

Debaixo de chuva, junto à Escola Primária de Rio de Vide, Jesus chorou junto dos apóstolos, até que chegaram os soldados romanos com Judas que o entregou às autoridades. «Chegou a hora do filho do homem pôr sobre os seus ombros a salvação dos homens e fazer cumprir o que estava escrito», disse Jesus, iniciando ali a recriação da primeira das 14 penosas estações que culminariam com a sua morte, ao lado de dois ladrões, também condenados por Pôncio Pilatos.


Dali a via-sacra seguiu por Rio de Vide, até chegar ao largo, onde Pôncio Pilatos falou à multidão e, lavando as mãos, deixou-a decidir o destino de Jesus. «Crucificai-o», gritaram. Começou ali o calvário, desenrolando--se até à freguesia vizinha e subindo até ao Mosteiro de Semide, local onde acontece a quarta estação, uma das mais marcantes da Via-Sacra: o encontro de Jesus com a sua mãe. Depois, o calvário prosseguiu até ao Santuário do Senhor da Serra, local que serve de cenário à crucificação e morte do Messias, um dos momentos mais importantes do caminho da cruz.



É um momento que impressiona

Das dezenas de populares que acompanharam a iniciativa, juntamente com as Irmandades da Misericórdia de Semide, do Santíssimo, das Almas, da Senhor do Rosário e da Senhora dos Remédios (Rio de Vide) muitos fazem-no anualmente, movidos pela fé. É o caso de Arsénio Gaudêncio, natural de Semide, que garante estar presente todos os anos «pela fé» e porque é um momento que «impressiona». Que o diga Maria da Conceição, que apesar de acompanhar a Via-Sacra desde o seu início, há 20 anos atrás, ainda não consegue conter as lágrimas no momento do encontro de Cristo com a mãe. «O grito de Maria ao encontro de Jesus emociona», contou, acrescentando que o mau tempo não a demove. «No primeiro ano chovia muito e ninguém desistiu», concluiu.
Ali as tradicionais imagens são substituídas pela representação viva da dor de Cristo a caminho da cruz. Uma representação total da Paixão de Cristo que foi impulsionada ainda pelo anterior padre das duas paróquias, Pedro dos Santos, que lançou o desafio aos jovens, há mais de duas décadas e estes, vão perpetuando a tradição tentando atrair os mais novos e «encaminhá-los», como explica Cassilda Silva, de 46 anos, que participa na recriação desde o início, «pela fé e porque os jovens precisam de ajuda» na preparação do evento religioso.


Já Guida Jesus, outra figurante, afiança que além da fé move-a a vontade de «mostrar às pessoas um bocadinho daquilo que Jesus viveu e sentiu». Garantindo que participa na Via-Sacra desde que se «lembra», a professora de 28 anos, defende que o momento protagonizado pela juventude das duas freguesias «mostra que há jovens que ainda acreditam em Jesus».


Há dois anos há frente das duas paróquias, o padre João Paulo Fernandes conta que apanhou a tradição quando foi para Semide e Rio de Vide. Um ritual que o pároco assume que «ainda junta muitas pessoas», até por ser um evento com duas décadas, «que já tem muita tradição» na região.

Fonte: Diário de Coimbra

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