quarta-feira, janeiro 26, 2011

Sem Carris não votamos, de movimento a realidade

Foto: Diário de Coimbra

"Serpins foi no dia de domingo uma localidade à margem de um Portugal que viveu um domingo frio de eleições presidenciais. Naquela freguesia da Lousã, o frio também esteve presente, mas o acto eleitoral foi boicotado pela população, que fechou os portões da escola primária onde estava instalada a assembleia de voto, com vários cadeados decorados com autocolantes onde se lia “Sem carris não voto”.

Apesar das diligências dos cerca de 10 bombeiros da corporação de Serpins presentes, a assembleia de voto não reabriu no prazo estipulado na Lei Eleitoral, pelo que a freguesia deve ir a votos amanhã.

O presidente da Junta de Freguesia, João Pereira, disse ao jornal Diário de Coimbra que embora não defenda «este tipo de radicalismos», compreende a posição da população. «Não era a perspectiva que eu tinha, nem apelei a isso, mas as coisas tombaram para esse lado e eu não posso deixar de estar solidário com a população», confessou o autarca, que integra o conjunto de 15 presidentes de juntas de freguesia que declarou na última semana abster-se de votar nestas eleições presidenciais, em protesto pela paragem das obras do metro.

Com cadeados ou não, o bloqueio parece não ter incomodado muita gente. «Até às 12h00 não apareceu mais ninguém», contou João Pereira, anunciando que quase ninguém queria votar.

E a julgar pelas pessoas que por ali passaram ao longo da manhã, a população associou-se mesmo em força ao movimento “Sem carris não voto”, marcando presença com cartazes e faixas de protesto. «Não vamos votar porque estamos indignados e estamos aqui também para mostrar isso mesmo», anunciou Conceição Filipe, entre familiares com cartazes de protesto, declarando que a abstenção talvez não seja a melhor solução, mas «é uma forma de dizermos que não estamos satisfeitos».

Serpins foi o único incidente detectado ontem, em Miranda, Lousã e Coimbra, mas tal não significa que o acto eleitoral tenha decorrido normalmente nas restantes freguesias. Em Vilarinho, na Lousã, muitos optaram por levantar o respectivo boletim e entregá-lo logo de seguida, em branco, e em Vila Nova, em Miranda do Corvo, a maior parte da população até passou pela assembleia de voto, mas para conviver no Mercado Tradicional, que decorria ali ao lado, e poucos foram os que se deslocaram para votar. Foi o caso de Hernâni Carlos e Augusto Gomes que optaram pela abstenção, por ser «uma das formas de mostrar indignação» pela forma como tem sido conduzido o processo do metro. «Tenho abordado algumas pessoas e todos estão solidários com o protesto», assumiu Hernâni Carlos, considerando que «tudo isto é culpa dos governantes, não tinham dinheiro não tiravam a linha».

Na Lousã, de acordo com o presidente da Junta de Freguesia, a suspensão do mandato dos autarcas, em protesto contra a paragem do metro, terá afectado «mais de 200 eleitores». Isto porque os membros da Junta, que só retomam funções amanhã, costumam apoiar sempre «uma média de 200 a 250 pessoas», em actos eleitorais. Estas foram as primeiras eleições, desde 1975, em que os elementos da Junta de Freguesia não estiveram na assembleia de voto.

Abstenção atinge 87% em Miranda e mais de 76% na Lousã

Nas cinco freguesias do concelho de Miranda, de um total de 11.231 inscritos, apenas votaram 1.570, o que dá uma taxa de abstenção de 87,02%. Na freguesia de Miranda votaram 8,6% dos eleitores, em Lamas 10,71%, Rio de Vide (17,12%), Semide (31,64%) e Vila Nova (3,6%). Em 2006, a abstenção em Miranda do Corvo foi de 37,85%.

No concelho da Lousã (13.326 inscritos) a abstenção atingiu 76,23%, com 3.167 votantes, valores que muito têm a ver com o boicote de Serpins. Na freguesia da Lousã, houve 24,85% votantes, na de Casal Ermio 22,65%, em Foz de Arouce 31,12%, em Gândaras 21,98%, e em Vilarinho votaram 16,99%. Em 2006, a abstenção na Lousã foi de 34,59%.

Abstenção por causa do Metro não se fez sentir em Coimbra

Os presidentes das juntas de freguesia conimbricenses de Almalaguês, Castelo Viegas, Ceira e Torres do Mondego, tinham apelado à abstenção nas eleições presidenciais de ontem, como forma de protesto pela suspensão das obras do Mondego, mas os números não confirmam a adesão por parte dos eleitores.

Ao contrário dos que aconteceu em muitas mesas de voto dos concelhos vizinhos de Mirando do Corvo e Lousã, onde a abstenção foi altíssima, e declaradamente por causa da paragem do projecto do metro, nas quatro freguesias de Coimbra os números da afluência às urnas, apesar de baixos, não aparentavam reflectir qualquer tipo de protesto.

Na sede da Associação Recreativa e Musical de Ceira, onde funcionavam as mesas de voto, alguns delegados revelaram que a situação era perfeitamente normal, adiantando que, na freguesia, os sufrágios para a Presidência da República e Parlamento Europeu são tradicionalmente fracos em afluência de eleitores.

Recorde-se que em Ceira, na eleição presidencial de 2006, votaram 57,17% dos eleitores, sendo a mais abstencionista das quatro freguesias visitadas, uma vez que Castelo Viegas teve, nesse ano, uma afluência de 66,35%, Almalaguês teve 63,80 e Torres do Mondego registou 63,13% de eleitores votantes.

No sufrágio de ontem, a freguesia de Ceira foi a que registou maior abstenção, registando o voto de apenas 38,18% dos eleitores. A taxa de afluência foi de 45, 03% em Almalaguês e de 45,3% em Torres do Mondego, aproximando-se dos 50% (49,86%) em Castelo Veigas."

Fonte: Diário de Coimbra

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